A ideia do desamparo, em Freud, advém do estado traumático do nascimento em que o bebê (na época era a gente) perde a homeostase, o equilíbrio uterino "perfeito" , para estar no mundo pela primeira vez. Um mundo que não era o seu, estranho, e o pior, sem qualquer capacidade para lidar com ele. O desamparo estrutural advém dessa experiência arcaica de estar diante do mundo em uma prematuração biológica e psicológica, incapaz de se auto organizar, portanto, num estado de dependência do outro. Este outro é o que salva o bebê das trevas do desamparo. Daí a nossa fixação, busca, dependência dos outros. Tememos o desamparo.
Daqui já podemos fazer várias leituras da evitação do desamparo: O estado de dependência emocional, no qual o sujeito se vê incapaz de se auto organizar, ou sempre precisando de alguém para tamponar / evitar o encontro com algo do desamparo. O excesso de demanda em uma relação, algo como: não me deixa só, me preenche o tempo todo pelo amor de Deus! Fato é que não consentir, não compreender, não simbolizar minimamente o estado de desamparo pode levar aos mais variados graus de ansiedade, angústia e depressão, a depender da estrutura interna de cada pessoa.
E por que não estamos perdidos? A falta, a angústia que advém daí nos move em direção ao outro novamente. Do pensar, do desejo e do encontro nasce a possibilidade. E se lançarmos um olhar sobre nossas vidas, veremos que nunca faltou alguém, nunca estivemos só de verdade, sem amparo. O nosso medo do desamparo talvez esteja ali onde ninguém pôde extrair nossa dor ou garantir o futuro. Parece-me que ali onde o outro faltou, no ponto do traumático, muitas vezes guardamos nossas dores em silêncio, tivemos medo, vergonha, falhamos também na procura pelo outro. Talvez esse outro também não estivesse preparado para acolher nosso gesto, nos entender, mas ainda assim afirmo que sempre teve alguém a quem recorrer e me parece que sempre teremos.
Fábio Matheus - Psicanalista
(68) 99936-4787
fabio.matheusac@gmail.com
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