Acho que encontrei uma das melhores representações para o traumático: a brasileira que caiu da montanha na Indonésia e que ninguém conseguiu resgatar enquanto estava viva. Nunca fui de acompanhar as notícias ruins dos jornais, pode chamar de egoísmo, mas eu não creio que devo consumir minha energia, atenção, tempo, emoções com qualquer coisa. Mas, se tem uma notícia que me pegou, foi a dessa jovem.
Olhando para algumas situações minhas — você também tem as suas —, vi que, em dois ou três pontos da minha vida, eu me sentia a menina que caiu da montanha, não alcançada por ninguém. Imagina a tristeza, desesperança, revolta ou mesmo raiva que sobrevém dessa posição de ter sido deixado para trás pelo guia (que era o experiente no caminho), de outras pessoas te verem, mas não conseguirem te acessar, alcançar, te tirar daquela posição. A gente sempre quer ser alcançado e salvo, né?
Eis que, sentindo tudo isso e vendo que ali era um lugar de morte, o lugar do meu trauma, decepção, o lugar inalcançável pelo outro, e estando somente psiquicamente naquele lugar, com outros recursos pessoais (mentais e físicos) preservados, diferente da menina que não tinha escolha, decido não mais permanecer naquele lugar. Vi que eu, vivinho, tinha a obrigação de não me abandonar, ficar ali.
Psiquicamente, aquele lugar existe: o lugar em que uma parte vitalmente importante de nós foi deixada para trás, não foi alcançada e mesmo deixou de existir, morreu. É importante não perecermos ali. Urge sermos socorridos, alcançados ou nos levantarmos, aceitar que aquela perda/morte aconteceu, mesmo que seja uma aceitação parcial que promova um passe para a vida.
(O texto viria até aqui e trataria disso: de que, sim, em algumas áreas nós não somos alcançados, de que existem áreas onde perecemos, mas que, por ser psíquico, é possível ir a outras áreas onde há vida. Porém, não poderia deixar o rapaz que a socorreu de fora.)
Ainda assim, sempre tem alguém pronto a nos fazer companhia, a nos salvar, assim como Agam fez por Juliana e pela família. São pessoas de bom coração dispostas a ajudar, venham de onde vierem. Do desconhecido que se compadece ao profissional, do amigo ao familiar, sempre tem alguém. Mas, para isso, precisam saber da sua posição.
Fábio Matheus
Psicanalista e psicólogo
(68) 99936-4787
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