quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Não ser alcançado(a)

 

    Acho que encontrei uma das melhores representações para o traumático: a brasileira que caiu da montanha na Indonésia e que ninguém conseguiu resgatar enquanto estava viva. Nunca fui de acompanhar as notícias ruins dos jornais, pode chamar de egoísmo, mas eu não creio que devo consumir minha energia, atenção, tempo, emoções com qualquer coisa. Mas, se tem uma notícia que me pegou, foi a dessa jovem.

    Alguém enviou a notícia no WhatsApp. Pensei: “Lugar de difícil acesso, escorregou, caiu, caramba, mas está todo mundo meio que vendo, sabendo, ela vai ser salva”. Não, ela não vai ser salva, mas eu ainda não sabia disso. Uma agenda de sessões cheia me impossibilitava de acompanhar o caso como eu queria, mas, a cada intervalo, eu dava uma olhada para saber se havia evoluído. Por que tanta demora? Por que ninguém vai ali onde ela está? Por que o socorro do país está demorando tanto? Poucas notícias na vida me trouxeram tanta agonia como essa. Olhando aqui, descubro que, em julho/26, fez um ano desse trágico acontecimento (se clicar aí, vai para uma matéria que recapitula o caso e traz relatos do pai).

    Olhando para algumas situações minhas — você também tem as suas —, vi que, em dois ou três pontos da minha vida, eu me sentia a menina que caiu da montanha, não alcançada por ninguém. Imagina a tristeza, desesperança, revolta ou mesmo raiva que sobrevém dessa posição de ter sido deixado para trás pelo guia (que era o experiente no caminho), de outras pessoas te verem, mas não conseguirem te acessar, alcançar, te tirar daquela posição. A gente sempre quer ser alcançado e salvo, né?

    Eis que, sentindo tudo isso e vendo que ali era um lugar de morte, o lugar do meu trauma, decepção, o lugar inalcançável pelo outro, e estando somente psiquicamente naquele lugar, com outros recursos pessoais (mentais e físicos) preservados, diferente da menina que não tinha escolha, decido não mais permanecer naquele lugar. Vi que eu, vivinho, tinha a obrigação de não me abandonar, ficar ali.

    Psiquicamente, aquele lugar existe: o lugar em que uma parte vitalmente importante de nós foi deixada para trás, não foi alcançada e mesmo deixou de existir, morreu. É importante não perecermos ali. Urge sermos socorridos, alcançados ou nos levantarmos, aceitar que aquela perda/morte aconteceu, mesmo que seja uma aceitação parcial que promova um passe para a vida.

(O texto viria até aqui e trataria disso: de que, sim, em algumas áreas nós não somos alcançados, de que existem áreas onde perecemos, mas que, por ser psíquico, é possível ir a outras áreas onde há vida. Porém, não poderia deixar o rapaz que a socorreu de fora.)

    Ainda assim, sempre tem alguém pronto a nos fazer companhia, a nos salvar, assim como Agam fez por Juliana e pela família. São pessoas de bom coração dispostas a ajudar, venham de onde vierem. Do desconhecido que se compadece ao profissional, do amigo ao familiar, sempre tem alguém. Mas, para isso, precisam saber da sua posição.



Fábio Matheus

Psicanalista e psicólogo

(68) 99936-4787

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Raiva de chorar

    Há pessoas que têm raiva de chorar, chegam a sentir ódio ou que estão vulneráveis. Talvez eu as entenda. Algumas sofreram tanto que chorar é símbolo de “estou sofrendo novamente, alguém me fez mal, eu não queria sofrer”. A experiência é transformada, bloqueada pelo excesso de defesa/evitação. Já eu, sinto outra coisa. Talvez por uma frase que achei em um encadernado de frases, que me chamou muita atenção. Ela dizia: chorar é lindo, pois cada lágrima que rola em seu rosto é uma palavra dita por um sentimento calado.

    Eu devia ter quinze anos. Devo ter feito extremos esforços interpretativos para imaginar o que era “uma palavra dita por um sentimento calado”. Ahhhh, isso é a lágrima. Ahhh, então quando choramos é a manifestação de coisas não ditas. A solidão que eu tinha e a compreensão dessa frase talvez me proporcionaram um punhado de reflexões (choros) que eram verdadeiras conexões comigo mesmo (15 a 18 anos). Talvez uma leve tendência à melancolia? Sim.

    Após isso, uma temporada de desenvolvimento narcísico, descoberta de algumas potencialidades. E depois, um longo período de aprendizado sobre as lições da vida e limites, rsrsrs. O famoso banquete de consequências composto por uma separação cujo causador fui eu e uma falência empresarial aos 28 anos. Foi quando iniciei a minha primeira análise, onde chorei muito nos primeiros 6 meses. 

    Atendo há quase 7 anos e devo dizer que quase nunca encontrei alguém que chorasse tanto quanto eu, rsrsrs. Culpa? Sensibilidade? Melancolia? Ou oportunidade de uma conexão profunda com todos os sentimentos silenciados até ali? Bem, um pouco de tudo. Mas talvez hoje eu use o chorar como um momento de sentir de verdade. Como uma forma de conexão com meus sentimentos silenciados. Sinto, sofro, compreendo, aceito. Uma dor aliviante. Depois, só resta parar de chorar e decidir como seguir.

    Mas o importante não é eu que tive uma casa boa, uma boa estabilidade parental durante a primeira infância, que fui "a majestade o bebê", isso é, que vivi um bom narcisismo constitutivo do "eu". O importante é aquela pessoa que foi "a criança mal acolhida" como pensou Ferenczi, que não se ligou tanto as satisfações da vida e que carrega dentro de si lembranças turbulentas. Essa pessoa se torna um adulto bem mais defensivo que eu, que sofre tudo mais intensamente, e pior, evita sentir. Uma alma que descansa pouco, vê perigo e ameaça em quase tudo e quase sempre reage muito além do esperado. Você criança, você terá o meu cuidado zeloso, a minha atenção dedicada, talvez o conforto e a segurança merecida. Mas sinto lhe dizer, você também terá que sentir essa dor, parar de chorar e decidir como seguir.

PS: Essa raiva de chorar era a frase de uma pessoa muito importante, mas que não tive tempo de dizer tudo isso a ela.

Não ser alcançado(a)

       Acho que encontrei uma das melhores representações para o traumático: a brasileira que caiu da montanha na Indonésia e que ninguém co...