terça-feira, 1 de setembro de 2026

Raiva de chorar

    Há pessoas que têm raiva de chorar, chegam a sentir ódio ou que estão vulneráveis. Talvez eu as entenda. Algumas sofreram tanto que chorar é símbolo de “estou sofrendo novamente, alguém me fez mal, eu não queria sofrer”. A experiência é transformada, bloqueada pelo excesso de defesa/evitação. Já eu, sinto outra coisa. Talvez por uma frase que achei em um encadernado de frases, que me chamou muita atenção. Ela dizia: chorar é lindo, pois cada lágrima que rola em seu rosto é uma palavra dita por um sentimento calado.

    Eu devia ter quinze anos. Devo ter feito extremos esforços interpretativos para imaginar o que era “uma palavra dita por um sentimento calado”. Ahhhh, isso é a lágrima. Ahhh, então quando choramos é a manifestação de coisas não ditas. A solidão que eu tinha e a compreensão dessa frase talvez me proporcionaram um punhado de reflexões (choros) que eram verdadeiras conexões comigo mesmo (15 a 18 anos). Talvez uma leve tendência à melancolia? Sim.

    Após isso, uma temporada de desenvolvimento narcísico, descoberta de algumas potencialidades. E depois, um longo período de aprendizado sobre as lições da vida e limites, rsrsrs. O famoso banquete de consequências composto por uma separação cujo causador fui eu e uma falência empresarial aos 28 anos. Foi quando iniciei a minha primeira análise, onde chorei muito nos primeiros 6 meses. 

    Atendo há quase 7 anos e devo dizer que quase nunca encontrei alguém que chorasse tanto quanto eu, rsrsrs. Culpa? Sensibilidade? Melancolia? Ou oportunidade de uma conexão profunda com todos os sentimentos silenciados até ali? Bem, um pouco de tudo. Mas talvez hoje eu use o chorar como um momento de sentir de verdade. Como uma forma de conexão com meus sentimentos silenciados. Sinto, sofro, compreendo, aceito. Uma dor aliviante. Depois, só resta parar de chorar e decidir como seguir.

    Mas o importante não é eu que tive uma casa boa, uma boa estabilidade parental durante a primeira infância, que fui "a majestade o bebê", isso é, que vivi um bom narcisismo constitutivo do "eu". O importante é aquela pessoa que foi "a criança mal acolhida" como pensou Ferenczi, que não se ligou tanto as satisfações da vida e que carrega dentro de si lembranças turbulentas. Essa pessoa se torna um adulto bem mais defensivo que eu, que sofre tudo mais intensamente, e pior, evita sentir. Uma alma que descansa pouco, vê perigo e ameaça em quase tudo e quase sempre reage muito além do esperado. Você criança, você terá o meu cuidado zeloso, a minha atenção dedicada, talvez o conforto e a segurança merecida. Mas sinto lhe dizer, você também terá que sentir essa dor, parar de chorar e decidir como seguir.

PS: Essa raiva de chorar era a frase de uma pessoa muito importante, mas que não tive tempo de dizer tudo isso a ela.

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